Rio de Janeiro, Brasil (especial para SIIC):
As populações infantis, dos países industrializados e alguns países em desenvolvimento, passaram a apresentar níveis adequados de vacinação contra a difteria em decorrência da implementação de programa de imunização preconizado pela Organização Mundial de Saúde, na década de 70. Entretanto, a difteria permanece endêmica em diversos países da África, na Índia, e em outras regiões tropicais, possivelmente devido à baixa cobertura vacinal, em algumas faixas etárias, e dificuldades operacionais de imunização em países de limites continentais, como por exemplo, o Brasil. As razões para a reemergência de epidemias em países onde os programas de imunização haviam controlado a doença não foram ainda completamente compreendidas. O aumento na densidade demográfica nas regiões urbanas, aliado às deficiências nutricionais e sanitárias são fatores que favorecem a transmissão da difteria. A importação e dispersão de clones toxinogênicos de
Corynebacterium diphtheriae, em populações exibindo níveis inadequados de anticorpos protetores, podem contribuir para o desenvolvimento de novos ciclos epidêmicos nas Américas. Recentemente, foi documentado no Rio de Janeiro, um caso de difteria clássica em indivíduo adulto completamente imunizado causado por amostra não fermentadora de sacarose de
C. diphtheriae subsp. gravis, biótipo predominantemente isolado na recente epidemia de difteria que acometeu diversos países do Leste Europeu. No Brasil foram notificados 27134 casos no período de 1980 a 1999. Os surtos de difteria ocorridos no território brasileiro e em outros países da América do Sul tem sido predominantemente relacionados com amostras de
C. diphtheriae subsp. mitis do biótipo fermentador de sacarose. A utilização de testes de metabolização da sacarose, observados na maioria dos manuais de identificação microbiológica, deve ser vista com reservas, uma vez que poderá considerar o
C. diphtheriae fermentador de sacarose como microrganismo contaminante. Na Era da Vacinação, a difteria continua manifestando-se de forma clássica em pacientes não vacinados. Entretanto, casos clínicos com manifestações respiratórias altas do tipo catarral com ausência de formação de pseudomembrana têm sido cada vez mais freqüentes, a exemplo do observado em 67,5% dos pacientes com difteria em São Petersburgo. O C. diphtheriae, independente da capacidade de produção de toxina, tem sido relacionado com processos infecciosos sistêmicos, incluindo quadros de endocardite, pneumonias e osteomielite. No Brasil, o
C. diphtheriae também tem sido isolado em pacientes com neoplasias e em outras condições clínicas de sítios anatômicos incomuns (sangue, secreção respiratória baixa, úlceras leishmanióticas e esperma). A freqüência de viagens internacionais, a disseminação de clones epidêmicos e invasores aliados às condições socioeconômicas desfavoráveis poderão constituir risco para a futura reemergência da difteria em proporções epidêmicas. Da mesma forma que nos países industrializados, a maioria dos clínicos apresentam escassa experiência no diagnóstico e tratamento da difteria. Além do constante investimento em medidas de controle, é necessário o treinamento de profissionais qualificados no diagnóstico clínico-laboratorial. O controle dos níveis de imunidade deve permanecer como um foco de atenção constante, especialmente na população de indivíduos adultos nos países em desenvolvimento. |