São Paulo, Brasil (especial para SIIC):
Introdução: Os transtornos mentais que ocorrem na comunidade e em culturas diversas são temas de grande interesse frente às constantes transformações sociais no mundo. A mudança do foco de pesquisa para os transtornos freqüentes na comunidade possibilitou aperfeiçoamentos metodológicos e desenvolvimento de instrumentos sensíveis para a sua detecção. A inclusão da variável cultural no estudo da psiquiatria, por sua vez, questiona o universalismo psicopatológico, a taxonomia ocidental e o diagnóstico de síndromes culturalmente específicas. Uma amostra desta visão psiquiátrica, ancorada na questão cultural e de transtornos da comunidade, são as pesquisas envolvendo neurastenia, um transtorno neurótico comum entre os chineses.
O presente trabalho é um estudo observacional e transversal dos transtornos mentais comuns entre os indivíduos chineses da comunidade.
Objetivo: Avaliar a psicopatologia não-psicótica dos chineses residentes na cidade de São Paulo, através de instrumentos padronizados.
Material e método: Os sujeitos da comunidade (n = 211), chineses e seus descendentes, preencheram um questionário de auto-avaliação e foram entrevistados por pesquisadores treinados.
Os instrumentos utilizados foram: Chinese Health Questionnaire (CHQ-12), Escala de Sintomas Físicos, Escala de Eventos Vitais, Inventário de Depressão de Beck (BDI), Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) e Schedule for Clinical Assessment in Neuropsychiatry (SCAN).
Os dados foram analisados através de estatística descritiva e univariada, regressão logística, análise da curva ROC, análise fatorial exploratória (CHQ-12) e análise de correlação.
Resultados: O coeficiente de consistência interna
de Cronbach do CHQ-12 foi de
0.71 e a correlação item-total variou de 0.25 a 0.55, mostrando boa fidedignidade e homogeneidade. Adotando SCAN como critério, o melhor ponto de corte de CHQ-12 foi 2/3. Os indicadores de validade foram calculados a partir deste critério: sensibilidade 75%, especificidade 71%, valor preditivo positivo 55%, valor preditivo negativo 86% e taxa de classificação incorreta 28%. A curva ROC foi utilizada para avaliar a capacidade discriminante do instrumento, tendo uma área sob a curva de
0.728. O questionário CHQ-12 se correlacionou significativamente com Escala de Sintomas Físicos (p <
0.005), Escala de Eventos Vitais (p < 0.005), BDI (p < 0.0005) e IDATE (p <
0.05).
Na análise fatorial exploratória, três dimensões psicopatológicas explicaram
47.8% da variância total do CHQ-12. O conteúdo sintomatológico avaliado por este instrumento pode ser descrito como tridimensional, contendo fator somático, depressivo e de preocupação.
Conclusão: Os transtornos mentais comuns predominantes na comunidade chinesa do Brasil são os transtornos neuróticos, sugestivos de neurastenia.
Os sujeitos chineses da comunidade apresentam uma psicopatologia própria, semelhante àquela dos indivíduos do seu país de origem.
O CHQ-12 é um instrumento de rastreamento culturalmente sensível, que apresenta evidências de confiabilidade e validade para ser aplicado em outras populações de chineses. |