Autores comunican

(especial para SIIC © Derechos reservados)

Paula Ravasco *
Autora invitada por SIIC

 

Autores comunican NUTRIÇÃO CLÍNICA EM PORTUGAL: QUAL A REALIDADE PRÁTICA?

objectivos: 1) Avaliar a realidade da prática corrente da nutrição clínica em hospitais e centros de saúde comunitários em Portugal; 2) Identificar instituições sensibilizadas para a necessidade de educação e receptivas para treino especializado em nutrição. conclusões: 1) A prática da nutrição clínica é maioritariamente unidisciplinar/uniprofissional; 2) Nas instituições de saúde, é conceptualmente errada a composição dos grupos de nutrição multiprofissionais, com deficiente integração e subutilização; 3) Iniciativas que promovam a educação e treino especializado em nutrição são consideradas essenciais.

* Paula Ravasco
describe para SIIC los aspectos relevantes de su trabajo 
SURVEY ON THE CURRENT PRACTICE OF NUTRITIONAL THERAPY IN PORTUGAL,
recientemente editado en 
Clinical Nutrition,
23(1) 113-119, 2004

Institución principal de la investigación
* Unidade de Nutrição e Metabolismo - Instituto de Medicina Molecular, Faculdade de Medicina da Univer, Lisboa, Portugal

Descripción de la investigación

Lisboa, Portugal (especial para SIIC):

Nutrição – Perspectiva Global
Nos últimos 30 anos e a nível mundial, a área da nutrição tem revelado ampla expansão.1 Embora exista evidência de que a intervenção nutricional melhora o resultado clínico e reduz o tempo de hospitalização,2-4 melhorando também a qualidade de cuidados com redução de custos,5-7 na realidade continua a ser necessário promover a integração da nutrição clínica nos cuidados de saúde prestados aos doentes. Logo a implementação de serviços de nutrição em instituições de saúde continua a ser consistentemente enfatizada e deve ser uma prioridade.8,9
Inquéritos nacionais que visem avaliar a prática corrente dos cuidados nutricionais em instituições de saúde são instrumentos chave para promover uma perspectiva crítica das práticas de rotina existentes, e para identificar os meios adequados para a sua optimização.10 No passado, diversos inquéritos analisaram a avaliação e manejo da desnutrição,11 a prática da nutrição clínica em hospitais e unidades de saúde comunitárias,12 bem como no domicílio,13,14 e também a estrutura e performance de grupos de nutrição.15 Em Portugal a nutrição artificial foi introduzida no final dos anos 70, tendo surgido desde então inúmeras iniciativas educacionais que dinamizaram e disseminaram a sua utilização.

Inquérito Nacional
O presente estudo é muito provavelmente representativo da realidade da nutrição clínica em Portugal, dada a elevada percentagem de respostas, 69%. Até à data a sua abrangência de avaliação é única, uma vez que incluiu também os Centros de Saúde comunitários, tendo estes últimos participado em maior número que os hospitais; esperemos que este facto seja um indicador que de futuro a prevalência de desnutrição na admissão hospitalar seja menor.

Profissionais de Saúde
Os resultados são globalmente intrigantes: por um lado mostram que os profissionais de saúde estão conscientes dos benefícios associados a uma nutrição adequada e da necessidade de educação especializada na área (73%); é por isso possível especular que reconhecem a sua falta de conhecimento a nível pré e pós graduado. Por outro lado, estes aspectos positivos perdem alguma da sua relevância face à aparente falta de coordenação entre profissionais de saúde e suas responsabilidades. Apesar da limitação de recursos humanos, estes nem sempre desempenham as funções para as quais foram treinados e pelas quais deveriam ser responsáveis, independentemente dos locais de trabalho.

Grupos de Nutrição
Embora se tenha verificado uma prevalência semelhante (34%) a outros países europeus tais como a Inglaterra,12,16,17 a sua composição e funções estão longe do que é advogado como desejável ou ideal.18,19 Em mais de 50% dos hospitais, tanto a prescrição como a monitorização da terapêutica nutricional eram da responsabilidade de médicos e/ou dietistas. No entanto e surpreendentemente verificámos que o acto de prescrição era sempre percentualmente superior ao de monitorização, o que implica a falta de supervisão da terapêutica nutricional. Os nossos resultados sugerem claramente que existe uma percepção errada dos objectivos e funções de cada membro do grupo de nutrição, o que pode resultar em cuidados de saúde deficientes. No entanto, não é de desvalorizar o facto da formação e existência dos grupos de nutrição resultar da vontade conjunta dos seus membros, e ser essa uma possível razão para a composição inadequada. Embora oficialmente “reconhecidos” pelas administrações hospitalares, não lhes é concedido qualquer financiamento ou reconhecimento das suas actividades, pelo que estas são desempenhadas “voluntariamente” como tarefa extra ao seu trabalho diário hospitalar e/ou académico. Ao contrário das recomendações internacionais, os grupos de nutrição não são reconhecidos como determinantes major da qualidade de cuidados de saúde,18 o que pode explicar em parte a falta de envolvimento dos enfermeiros. Ainda assim, o interesse dos enfermeiros pela nutrição foi confirmado nos centros de saúde comunitários onde eram os profissionais mais envolvidos, invertendo muitas vezes funções com os médicos que aqui assumiam mais frequentemente a monitorização do que a prescrição. Este papel dominante dos enfermeiros pode estar relacionado com a falta de dietistas/nutricionistas nos centros de saúde.
A necessidade de educação e treino em nutrição foi também um aspecto crítico, considerado essencial por 73% dos participantes. A adequação das funções acima descritas, bem como a melhoria da qualidade de cuidados de saúde, exigem a integração do ensino da nutrição para todos os grupos profissionais.20 Outro resultado peculiar foi a falta de envolvimento de dietistas/nutricionistas, em numero escasso e quase só nos hospitais exercendo a maioria apenas funções em serviços especializados de dietética para doentes ambulatórios, sendo negligenciada a sua participação numa perspectiva clínica mais ampla.21
O suporte nutricional tem de ser sempre baseado numa abordagem multiprofissional, sendo fundamental disseminar e implementar exemplos de boa prática de forma a assegurar o máximo de benefício para os doentes.22 Este facto foi recente e claramente demonstrado em pediatria.23 As instituições de saúde portuguesas não são diferentes da maioria dos países europeus em diversos aspectos que exigem mudanças: responsabilidades indefinidas na planificação/prática da nutrição, inexistência de educação em nutrição para todos os grupos de profissionais de saúde, falta de envolvimento dos doentes, e ainda a limitada colaboração entre profissionais de saúde e apoios por parte da administração hospitalar.20

Sumário e Perspectivas Futuras
Este estudo na sua simplicidade, enfatiza a necessidade de valorizar conteúdos para além dos resultados numéricos, e realça a relação frequente entre constrangimentos organizacionais e limitados recursos humanos. Nenhum destes aspectos pode ser resolvido sem o compromisso das administrações a nível institucional e governamental. Educação hands-on é bem vinda. Os nossos resultados confirmam a fundamentação das recomendações do Conselho da Europa20 sendo desejável que outras sociedades nacionais promovam iniciativas semelhantes. Só assim se pode obter um diagnóstico da realidade de cada país, se colhe informação que permite identificar potenciais parceiros para promover a adesão a iniciativas de mudança; sociedades europeias como a ESPEN (European Society for Clinical Nutrition and Metabolism) podem então ter fundamentos concretos para pressionar a União Europeia para desenvolver standards conjuntos de educação e prática em nutrição clínica.

Paula Ravasco *

Referencias bibliográficas

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6. Tucker H, Miguel S. Cost containment through nutrition intervention. Nutr Rev 1996;54:111-121.
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Otros artículos de Paula Ravasco
 
Ravasco P, Camilo M E, Gouveia de Oliveira A, Adam S, Brum G. A critical approach to nutritional assessment in critically ill patients. Clinical Nutrition 2002; 21(1):73-77.
Ravasco P, Camilo M E. The impact of fluid therapy on nutrient delivery: a prospective evaluation of practice in respiratory intensive care. Clinical Nutrition 2003; 22(1): 87-92.
Ravasco P, Monteiro Grillo I, Camilo M E. Does nutrition influence Quality of Life in cancer patients undergoing radiotherapy? Radiotherapy & Oncology 2003; 67: 213-220.
Castro R, Rivera I, Ravasco P, Jakobs C, Blom HJ, Camilo ME e Tavares de Almeida I. 5,10-methylenetetrahydrofolate reductase (MTHFR) 677C-T and 1298A-C mutations are genetic determinants of elevated homocysteine. Quarterly Journal of Medicine 2003; 96: 297-303.
Ravasco P, Monteiro Grillo I, Marques Vidal P, Camilo M E. Nutritional deterioration in cancer: the role of disease and diet. Clinical Oncology 2003; 15 (8): 443-450. 
Castro R, Rivera I, Struys EA, Jansen EEW, Ravasco P, Camilo ME, Blom HJ, Jakobs C and Tavares de Almeida I. Increased homocysteine and S-adenosylhomocysteine concentrations and DNA hypomethylation in vascular disease. Clinical Chemistry 2003; 49: 1292-1296. 
Ravasco P, Martins P, Ruivo A, Camilo M E. Survey on the current practice of nutritional therapy in Portugal. Clinical Nutrition 2004; 23: 113-119. 
Ravasco P, Camilo M E. Tube feeding in mechanically ventilated critically ill patients: a prospective clinical audit. Nutrition in Clinical Practice 2003; 18 (5): 427-433. 
Mouro F, Amado A, Ravasco P, Marques Vidal P, Camilo ME. Nutritional risk and status assessment in surgical patients: a challenge amidst plenty. Nutricion Hospitalaria 2004; 19: 83-88. 
Ravasco P, Monteiro-Grillo I, Marques Vidal P, Camilo ME.Cancer: disease and nutrition are key determinants of patients: Quality of Life. Supportive Care in Cancer 2004; 12: 246-252.
Castro R, Rivera I, Ravasco P, Camilo ME, Jakobs C, Blom HJ, Tavares de Almeida I. 5,10-methylenetetrahydrofolate reductase (MTHFR) 677C-T and 1298A-C mutations are associated with DNA hypomethylation. Journal of Medical Genetics 2004; 41: 454-458.
Ravasco P, Monteiro-Grillo I, Marques Vidal P, Camilo ME. Dietary counseling improves patient-outcomes: a prospective randomized controlled trial in colorectal cancer patients undergoing radiotherapy (em revisao para re-submissao ao Journal of Clinical Oncology).
Ravasco P, Marques Vidal P, Monteiro Grillo I, Camilo M E. Nutritional risks and colorectal cancer in a Portuguese population (submitted). Ravasco P, Camilo M E. Correspondence: reply to Dr. Piquet et al letter on the article - Survey on the current practice of nutritional therapy in Portugal. Clinical Nutrition 2004; 23: 23: 438.
Ravasco P e Camilo M E. Alimentaçao e incidéncia de cancro. Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, Serie III vol. 5, Novembro/Dezembro 2000: 345-351.
Proena V, Ravasco P, Camilo M E, Monteiro Grillo I. Caracterizaçao do estado nutricional em doentes submetidos a Radioterapia. Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, Serie III vol. 6, nº 4 Julho/Agosto 2001: 201-207.
Raimundo P, Ladeira N, Ravasco P, Camilo M E. Insuficiçencia renal crónica e hemodiálise: implicaçoes nutricionais e na Qualidade de Vida. Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, Serie III vol. 7, nº 1 Janeiro/Fevereiro 2002: 5-13.
Ravasco P, Monteiro Grillo I, Camilo M E. Cancro colorectal e factores de risco numa populaçao portuguesa: estudo de caso-controlo. Jornal Portugués de Gastrenterologia 2002; 9: 311-320.

Para comunicarce con Paula Ravasco mencionar a SIIC como referencia: 
Avenida Prof. Egas Moniz, 1649-028, Lisboa, Lisboa, Portugal
p.ravasco@fm.ul.pt

Autora invitada
27 de febrero
, 2004

Descripción aprobada
 9 de julio
, 2004

Edición
20 de agosto, 2004


Acerca del trabajo completo


SURVEY ON THE CURRENT PRACTICE OF NUTRITIONAL THERAPY IN PORTUGAL

Título en castellano
INQUÃRITO SOBRE A PRÁTICA DA NUTRIÇÃO CLíNICA EM PORTUGAL

Autores
Paula Ravasco,1 Maria Ermelinda Camilo2

1 Assistant Professor, Researche, Unidade de Nutrição e Metabolismo, Instituto de Medicina Molecular, Faculdade de Medicina
2 Unidade de Nutrição e Metabolismo, Instituto de Medicina Molecular, Faculdade de Medicina

Acceso a la fuente original
Clinical Nutrition

http://www.elsevier.com

Acceso a la cita en Medline
http://www.ncbi.nlm.nih.gov

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Principal 2

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