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AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA E ASSOCIAÇÃO COM NÍVEIS DE DEPRESSÃO E ANSIEDADE EM INDIVÍDUOS QUE INALARAM FUMAÇA TÓXICA
(especial para SIIC © Derechos reservados)
bbbb
cccc

Autor:
Daiane Alves Delgado
Columnista Experta de SIIC

Institución:
Universidade Federal de Santa Maria

Artículos publicados por Daiane Alves Delgado 
Coautores
Jéssica De Conto* Adriane Schmidt Pasqualoto* Isabella Martins de Albuquerque** Ana Lucia Cervi Prado* Marisa Bastos Pereira*** 
Kinesióloga, Universidade Federal de Santa Maria*
Kinesióloga, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Brasil**
Kinesióloga, Hospital Universitário de Santa Maria***

Recepción del artículo: 0 de , 0000

Aprobación: 5 de julio, 2016

Primera edición: 7 de junio, 2021

Segunda edición, ampliada y corregida 7 de junio, 2021

Conclusión breve
Os resultados demonstraram que os indivíduos que inalaram fumaça tóxica no incêndio da Boate Kiss apresentaram, 28 meses após o desastre, uma diminuição da qualidade de vida, especialmente no componente mental. Além disso, observou-se moderados níveis de ansiedade e depressão, que foram fortemente associados a baixos níveis de qualidade de vida mental. Tais achados evidenciam que populações afetadas por desastres necessitam de um acompanhamento longitudinal e multiprofissional.

Resumen

Resumen: Introdução: O impacto sobre a saúde física e mental em sobreviventes de desastres pode evoluir para amplas consequências, nas quais podem interferir diretamente na qualidade de vida dos indivíduos. Objetivo: Avaliar a qualidade de vida de sobreviventes do incêndio da Boate Kiss em Santa Maria - RS, Brasil, e analisar sua associação com níveis de depressão e ansiedade. Métodos: Estudo transversal com uma amostra de 63 sobreviventes que foram atendidos no Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes do HUSM. Os instrumentos de avaliação utilizados foram o12-Item Short-Form Health Survey (SF-12), o Índice de Depressão de Beck e o Inventário de Ansiedade Traço-Estado. Resultados: Constatou-se diminuição da qualidade de vida, especialmente quanto ao componente mental, em 54% dos indivíduos. Observou-se níveis moderados de ansiedade-traço em 46% e de ansiedade-estado em 58.7%, além de sintomas depressivos em 33.33% da amostra. Baixo nível de qualidade de vida mental foi fortemente associado com ansiedade-traço (r = -0.764; p = 0.000), com ansiedade-estado (r = -0.707; p = 0.000) e sintomas depressivos (r = -0.797; p = 0.000). Conclusão: Na amostra pesquisada evidenciou-se diminuição da qualidade de vida no aspecto mental e níveis moderados de ansiedade e depressão, os quais foram fortemente associados à qualidade de vida.

Palabras clave
qualidade de vida, lesão por inalação de fumaça, ansiedade, depressão, ansiedad, desastres provocados por el hombre, depresión, lesión por inhalación de humo, desastres provocados pelo homem

Clasificación en siicsalud
Artículos originales> Expertos del Mundo>
página www.siicsalud.com/des/expertos.php/147814

Especialidades
Principal: NeumonologíaSalud Mental
Relacionadas: KinesiologíaMedicina InternaToxicología

Enviar correspondencia a:
Isabella Martins de Albuquerque, 97105-900, Santa Maria, Brasil

QUALITY OF LIFE ASSESSMENT AND ASSOCIATION WITH DEPRESSION LEVELS AND ANXIETY IN SURVIVORS OF TOXIC SMOKE INHALATION

Abstract
Abstract: Introduction: The impact on physical and mental health of disaster on disaster survivors can have far-reaching consequences, which may directly affect the quality of life.

Objective: To evaluate the quality of life of survivors of the Kiss Nightclub fire in Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brazil, and to analyze its association with depression and anxiety levels. Methods: An across-sectional study was conducted on 63 survivors who were assisted by the Integrated Care Center for Accident Victims at the HUSM. The assessment instruments were the 12-Item Short-Form Health Survey (SF-12), Beck Depression Inventory, and the State-Trait Anxiety Inventory. Results: A decrease was observed in the quality of life, especially in the mental component, in 54% of the individuals. Moderate levels of an anxiety-trait were found in 46% and of an anxiety-state in 58.7%, in addition to depressive symptoms in 33.33% of the sample. Low quality of mental life was strongly associated with an anxiety-trait (r = -0.764; p = 0.000), anxiety-state (r = -0.707; p = 0.000), and depressive symptoms (r = -0.797; p = 0.000). Conclusion: The sample studied presented a decreased quality of life in the mental aspect and moderate levels of anxiety and depression, which were strongly associated with their quality of life.


Key words
quality of life, smoke inhalation injury, anxiety, depression, man-made disasters

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA E ASSOCIAÇÃO COM NÍVEIS DE DEPRESSÃO E ANSIEDADE EM INDIVÍDUOS QUE INALARAM FUMAÇA TÓXICA

(especial para SIIC © Derechos reservados)

Artículo completo
Introdução

O desastre ocorrido na Boate Kiss, na cidade de Santa Maria, RS, Brasil, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, vitimou 242 jovens e adultos, sendo a maioria dos óbitos causados por asfixia metabólica pela inalação de fumaça tóxica.1,2 As características do incêndio na Boate Kiss foram semelhantes as do incêndio na discoteca República Cromañon, na Argentina, em 2004, com 194 vítimas fatais e aproximadamente 1432 feridos.

Os sobreviventes da Boate Kiss foram acometidos, além da intoxicação por monóxido de carbono e cianeto, lesão térmica das vias aéreas, acometimento pulmonar por partículas sólidas de materiais químicos e queimaduras corporais.3 Tais situações acarretam danos físicos e também efeitos negativos na saúde mental. Em consequência dessa vivência traumática, os indivíduos afetados necessitam de apoio multiprofissional para reduzir o sofrimento emocional e também para facilitar a reabilitação física.4,5

Vários autores têm investigado a curto e longo prazo os efeitos físicos e psicológicos de diversos tipos de desastres ocorridos pelo mundo –incêndios, ataques terroristas, explosões de bombas, tsunamis– e têm demonstrado uma grande prevalência de problemas físicos e psicológicos.6-9 Os desastres e a exposição a elevados níveis de estresse apresentam consequências diversificadas sobre a saúde mental das populações afetadas, dentre elas, pode-se citar a depressão, ansiedade e baixa autoestima.9,10

Sabe-se que a inalação de fumaça ou gases é a principal causa de mortalidade precoce em vítimas de incêndio,11 entretanto, são escassos os estudos sobre os efeitos físicos da exposição a incêndios, e mais especificamente a respeito dos efeitos respiratórios mediante tal exposição. Alguns trabalhos estudaram a população afetada e os trabalhadores do resgate do ataque ao World Trade Center e observaram que a exposição intensa aos materiais tóxicos gerados no episódio foi associada à responsividade brônquica e aumento da tosse, além de sintomas como dispneia, congestão nasal e diminuição da função pulmonar.12,13

Nos últimos anos, o conceito de qualidade de vida tornou-se fundamental para a compreensão de problemas de saúde.14 Tal variável pode ser afetada por doenças, desastres e exposição a eventos ambientais.15 Sendo que a busca de maior conhecimento sobre a qualidade de vida das pessoas envolvidas nessas situações faz-se importante, a fim do estabelecimento de estratégias visando a recuperação e quantificação do impacto dos danos à saúde a médio e longo prazo.16

Partindo desses pressupostos, o presente estudo objetivou avaliar a qualidade de vida de sobreviventes do incêndio na Boate Kiss em Santa Maria - RS, Brasil, e analisar sua associação com níveis de depressão e ansiedade.


Metodologia

Trata-se de um estudo transversal descritivo, a partir de amostra por conveniência, recrutada no CIAVA do HUSM, sendo inicialmente convidados a participar do estudo 133 indivíduos. Foram incluídos os indivíduos que tiveram exposição direta ou indireta à fumaça tóxica e/ou queimaduras proveniente do incêndio. O critério de exclusão abrangeu os indivíduos envolvidos no evento, mas que não foram encaminhados ou atendidos pelo CIAVA.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UFSM sob CAAE n° 23676813.8.0000.5346 em dezembro de 2013, de acordo com a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, sobre pesquisas envolvendo seres humanos. E todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), antes de responder aos questionários.


Procedimento e coleta dos dados

Os indivíduos que compuseram o estudo foram recrutados através de consulta ao banco de dados do CIAVA. O contato foi realizado entre agosto de 2014 e abril de 2015, pessoalmente, nos intervalos dos atendimentos da Fisioterapia no HUSM, ou por ligação telefônica, sendo agendado um encontro para aplicação dos questionários.

Os questionários foram autoaplicados na presença dos pesquisadores e as avaliações ocorreram de forma tranquila e sem intercorrências.


Instrumentos

Para as avaliações foram utilizados três questionários validados. O instrumento de mensuração da qualidade de vida dos pacientes foi o questionário 12-Item Short-Form Health Survey (SF-12).17 O Beck Depression Inventory (BDI) ou Índice de Depressão de Beck18 avaliou sintomas depressivos e o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE)19 foi utilizado para medir conceitos de ansiedade. Todos os questionários foram aplicados e interpretados pelo psicólogo da equipe.

O SF-12é um questionário de 12 perguntas selecionadas a partir do Short-Form 36 Health Survey (SF-36), constituído pelos domínios mental e físico. Esses domínios conjuntamente, avaliam a qualidade de vida da população, considerando a auto-avaliação sobre sua saúde nas últimas quatro semanas.20,21 As doze respostas geraram uma pontuação para o componente físico (CF) e para o componente mental (CM) e os pontos de corte adotados foram de 50 pontos para o CF e 42 pontos para o CM.20

O BDI é um instrumento que contém 21 itens, com alternativas de intensidade que variam de 0 a 3 e avalia a presença de sintomas depressivos, tristeza, desânimo, culpa e entre outras manifestações que o indivíduo possa ter apresentado na semana em que ele responde o questionário.18,22 Os indivíduos que obtiveram escore < 10 foram considerados não deprimidos e aqueles que apresentaram escore ? 10 foram classificados com sinais de depressão.23

Já o IDATE é um questionário subdividido em Traço (IDATE-T) e Estado (IDATE-E), cada escala contém 20 questões, e tem por finalidade avaliar a ansiedade do indivíduo que as responde. A escala do IDATE-T demonstra a forma como a pessoa geralmente se sente e o IDATE-E apresenta como a pessoa se sente no momento em que responde o questionário.24 A referida escala foi validada para o Brasil em 1977 por Biaggio, Natalício e Spielberg19 e consiste de perguntas do tipo Likert, com quatro alternativas que variam de 1 a 4 pontos e o somatório dessa pontuação classifica o nível de ansiedade do indivíduo, sendo baixo de 20 a 34 pontos, moderado de 35 a 49 pontos, elevado de 50 a 64 pontos e altíssimo de 65 a 80 pontos.19


Análise estatística

Os dados coletados foram tabulados e posteriormente analisados utilizando o programa GraphPad Prism 5.0. Utilizou-se o teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov para avaliar a distribuição da amostra, e o teste Qui-quadrado foi para avaliar a associação entre as variáveis categóricas e as variáveis demográficas e clínicas.

Para comparação das médias dos indivíduos deprimidos e não-deprimidos, utilizou-se o teste t de Student. O teste de correlação de Pearson foi utilizado para avaliar a relação linear entre as variáveis categóricas.

Os dados foram expressos em frequência absoluta (n), percentual (%), e média ± desvio padrão. O nível de significância adotado foi de 95% (p = 0.05).


Resultados

Foram convidados a participar do estudo 133 indivíduos. Destes, 63 foram incluídos na amostra (Figura 1).






As características demográficas e clínicas estão demonstradas na Tabela 1. Do total de indivíduos, 60.32% eram mulheres, e a média de idade foi de 27.16 ± 8.86 anos, sendo que 71.4% dos indivíduos encontravam-se na faixa etária de 20 a 29 anos. Quanto à escolaridade, 69.84% da amostra possuía ensino superior completo ou incompleto. Sobre a ocupação, 58.73% eram estudantes, 9.53% funcionários públicos e 31.74% apresentava outras profissões.

Em relação às características clínicas da amostra, 49.20% necessitaram de internação hospitalar em decorrência do desastre e 33.33% sofreram queimaduras. Acerca da qualidade de vida (SF-12), a média do CF foi de 49.86 ± 8.75 pontos e do CM 45.05 ± 11.15 pontos (Tabela 1).

Estratificando a amostra de acordo com os pontos de corte para o instrumento SF-12, observou-se que 42.9% da amostra apresentou baixa qualidade de vida no que se refere ao CF, enquanto 54% não atingiu o ponto de corte do CM, demonstrando que a saúde mental dos indivíduos investigados está mais prejudicada que a saúde física.






Pela classificação do BDI, 42 (66.66%) dos indivíduos foram considerados não-deprimidos, enquanto 21 (33.33%) estavam evidenciando sinais de depressão (p = 0.0001) (Figura 2). Comparando as características demográficas e clínicas entre os indivíduos com depressão (n = 21) e sem depressão (n = 42), observou-se que mais da metade da amostra com depressão (13 dos 21 indivíduos) encontrava-se na faixa etária dos 20 aos 29 anos. Da mesma forma, observou-se que os maiores índices de depressão estavam entre o sexo feminino, visto que 15 mulheres foram consideradas deprimidas e 6 dos homens foram classificados nesse grupo. Além disso, constatou-se que os indivíduos que não sofreram queimaduras (n = 17) e nem necessitaram de internação (n = 12) demonstram maiores níveis de depressão do que os que sofreram queimaduras (n = 4) e dos que necessitaram de internação (n = 9).






No que se refere aos níveis de ansiedade, a maioria da amostra investigada apresentou índice moderado de ansiedade para ambos os escores, sendo 29 (46%) para a ansiedade-traço (IDATE-T) e 37 (58.7%) para a ansiedade-estado (IDATE-E) (Figura 3).






Ao classificar o IDATE em seus níveis de ansiedade, analisando-o com as variáveis demográficas e clínicas, observou-se que um maior número de mulheres apresentou níveis elevados e altíssimosde ansiedade, em comparação aos homens, tanto traço (12 mulheres, 4 homens), quanto estado (10 mulheres, 1 homem).
Correlacionando as variáveis qualidade de vida, depressão e ansiedade, pode-se observar que o CM apresentou correlação forte e negativa com o IDATE-T (r = -0.764; p = 0.000), IDATE-E (r = -0.707; p = 0.000) e BDI (r = -0.797; p = 0.000). Já o CF apresentou correlação moderada e negativa com o IDATE-T (r = -0.364; p = 0.003) e o BDI (r = -0.385; p = 0.002). Ainda, o BDI evidenciou correlação forte e positiva com o IDATE-T (r = 0.765; p = 0.000) e correlação moderada e também positiva com o IDATE-E (r = 0.658; p = 0.000) (Tabela 2).






Discussão

Os resultados demonstraram que a qualidade de vida no componente mental do SF-12 está prejudicada na amostra pesquisada.Uma forte correlação foi observada entre baixo nível de qualidade de vidacom ansiedade-traço, ansiedade-estado e sintomas depressivos. Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a avaliar a qualidade de vida de sobreviventes do incêndio na Boate Kiss em Santa Maria, RS, Brasil, e analisar sua associação com níveis de depressão e ansiedade.

No estudo de Wen e colaboradores,25 onde os autores também utilizaram o SF-12, foi constatado uma qualidade de vida significativamente menor em indivíduos moradores de áreas atingidas por uma inundação, comparando-os a indivíduos residentes de áreas próximas, porém não atingidas. Ainda encontraram que ambos os domínios, físico e mental, foram correlacionados negativamente com sintomas de estresse pós-traumático. Outro estudo avaliou uma população semelhante, porém através do SF-36, e encontrou qualidade de vida consideravelmente mais baixa nesses atingidos, quando comparados com indivíduos da mesma faixa etária, porém não atingidos.26 Ressalta-se que as populações avaliadas nesses estudos, tiveram grandes perdas materiais, o que pode agravar de forma significativa seu estado emocional.

No presente estudo foi demonstrado que o número de indivíduos com sintomas depressivos (BDI = 10) foi clinicamente significativo em relação à amostra total. Em relação aos níveis de ansiedade na amostra estudada, observou-se que mais da metade apresentou níveis moderados, sugerindo que eventos traumáticos, como o incêndio ocorrido na Boate Kiss, ocasionam uma grande influência sobre o estado emocional dos indivíduos. Tais resultados vão ao encontro de achados de outros estudosnos quais demonstram o profundo impacto de diferentes desastres sobre a saúde física e mental de sobreviventes, sendo possível observar medo, estresse, insônia e depressão.6,27,28

Apesar da amostra estudada ser constituída em sua maioria por mulheres, identificou-se que as mesmas apresentaram maiores índices de depressão e ansiedade quando comparadas aos homens. Essas variáveis foram analisadas anteriormente em populações afetadas por diferentes tipos de desastres, sendo que os autores também encontraram uma maior prevalência de sintomas depressivos e maiores índices de ansiedade no sexo feminino.29,30

Constatou-se neste estudo uma maior prevalência de depressão e ansiedade nos indivíduos que não sofreram trauma físico. Ao comparar tal achados aos demais encontrados na literatura, também foi constatado que sobreviventes de desastres que não sofreram danos corporais, como queimaduras, apresentaram maiores níveis de depressão e ansiedade do que os indivíduos que sofreram além do trauma emocional, o trauma físico.6,31 Schneider e colaboradores6 sugerem que o trauma emocional é mais impactante na qualidade de vida e depressão, do que o trauma físico.

Da mesma forma, maior prevalência de depressão e ansiedade também foi demonstrada em indivíduos que não necessitaram de internação hospitalar, porém presenciaram todo o desastre. Isso reforça o fato de que desastres podem levar a traumas de acordo com a intensidade da participação consciente nele. Além disso, é importante destacar que tais indivíduos não receberam o mesmo acolhimento multidisciplinar e cuidados especializados que os indivíduos acometidos fisicamente, acolhimento esse que pode ter ocasionado um maior conforto a estes indivíduos. Estudos vêm demonstrando que em pacientes cirúrgicos os níveis de ansiedade são menores quando estespacientes são acolhidos pela equipe de saúde.32,33

Em nosso estudo, foi evidenciada uma forte correlação entre baixo nível de qualidade de vida com ansiedade-traço, ansiedade-estado e sintomas depressivos. Tal achado sugere que os indivíduos com baixa qualidade de vida no CM podem apresentar ansiedade, tanto traço, quanto estado e depressão, enquanto que os indivíduos que apresentaram uma baixa qualidade de vida no CF são passíveis de apresentarem apenas ansiedade traço e depressão. Ao estabelecermos uma correlação entre os parâmetros de depressão com os de ansiedade, obteve-se uma associação positiva, indicando que indivíduos com depressão podem também apresentar ansiedade. Siqveland e colaboradores34analisaram qualidade de vida, depressão e sintomas de estresse pós-traumático em sobreviventes do tsunami na Tailândia, e encontraram uma associação negativa bem estabelecida entre sofrimento psíquico e qualidade de vida, concordando com os achados do presente estudo. Do mesmo modo, outro estudo avaliou sobreviventes e moradores da cidade de Nova Iorque após os ataques terroristas de 2001 e encontrou uma associação positiva entre níveis elevados de ansiedade e depressão com baixos níveis do componente mental do questionário SF-12.9

Em recente estudo conduzido por Yang e colaboradores,35 os autores analisaram a relação entre depressão e ansiedade em pacientes que sobreviveram à poliomielite na Coreia, sendo constatada uma associação significativa entre tais variáveis. Kotov e colaboradores36 correlacionaram depressão e ansiedade com desordens respiratórias, e observaram quetais variáveis foram associadas com os sintomas respiratórios dos indivíduos da amostra.
Algumas limitações do estudo devem ser ressaltadas. Dentre elas, pode-se mencionar o fato de que a amostra respondeu os questionários em períodos diferentes. Outro fator limitante foi a inexistência de dados prévios sobre as variáveis analisadas, tanto na fase anterior ao trauma quanto na fase aguda, impossibilitando a identificação da real influência do desastre nesses níveis. Além disso, dados como vulnerabilidade social e econômica poderiam aprofundar a análise e auxiliar na interpretação dos resultados. Também é importante destacar que pessoas afetadas por desastres geralmente não se sentem confortáveis em relembrar o ocorrido e autorrelatar seu estado emocional. Infere-se que tal questão possa ter influenciado no tamanho da amostra disposta a participar da pesquisa. Entretanto, mesmo sem um número maior da amostra e na ausência de um grupo controle, sugere-se que tais limitações não invalidam os nossos achados, principalmente em função de que a avaliação da qualidade de vida de sobreviventes do incêndio na Boate Kiss é inédita para a população avaliada.


Conclusão

Os resultados demonstraram que os indivíduos que inalaram fumaça tóxica no incêndio da Boate Kiss apresentaram, 28 meses após o desastre, uma diminuição da qualidade de vida, especialmente no componente mental. Além disso, observou-se moderados níveis de ansiedade e depressão, que foram fortemente associados a baixos níveis de qualidade de vida mental.

Tais achados evidenciam que populações afetadas por desastres necessitam de um acompanhamento longitudinal e multiprofissional. O fisioterapeuta é um dos profissionais envolvidos nesse cuidado e necessita compreender de uma forma global o estado físico e emocional de seus pacientes, já que isso pode interferir no processo de reabilitação.

Ressalta-se também a necessidade de que estudos prospectivos sejam realizados, contemplando a análise com outras variáveis que auxiliem a compreender os efeitos psicológicos a curto e a longo prazo nos pacientes envolvidos em desastres, e sua implicância no processo de recuperação dos mesmos.



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